9 de abril de 2008

Névoa da Flandres

Há 90 anos atrás o Exército Português sofria a maior derrota da sua história.
Em duas horas o Exército Alemão comandado pelo Príncipe Rupprecht da Baviera, infligia 7000 baixas, numero esse que se pode considerar diminuto, uma vez que perante as tropas alemãs, os soldados Portugueses fizeram a única coisa possível de ser feita - Fugiram!

Detalhe do Mapa de Trincheiras - Folha 36 S.W., Edição 9A - Posições de Trincheiras a 27 de Julho 1917
Tal como bem afirma o Repróbo, a decisão de lutar na Flandres, enviando para lá, as tropas que faziam falta em Moçambique, onde Von Lettow-Voorbeck brincava ao gato e ao rato com um "exército" português dizimado pelas doenças tropicais, não passou de uma tentativa de legitimação do governo de Lisboa, desejoso de ser aceite como igual entre as potências europeias e arranjar um inimigo ao qual pudessem deitar as culpas pelas dificuldades internas.


Embarcados como gado , contaminados com tifo, os Soldados Portugueses desembarcaram em Brest carregados de piolhos, num estado tal que muitos pensaram tratar-se de tropas retiradas da frente de Batalha.
O CEP, teve apenas uns meses de instrução em Tancos, a que os Políticos chamaram eufemisticamente de "Milagre". Milagre esse consistiu em dar um uniforme e uma espingarda.
Foi com espanto e admiração que os Ingleses constataram que ninguém no CEP, sabia o que verdadeiramente os esperava.

[...]"Chigamos a Bréste no dia 26 e no mesmo dia ás 5 horas metemonos no comboio tivemos então 56 horas del muito frio passei dorante essa viagem. No dia 29 chiguei e passei na cidade de Ernesse mesmo dia chiguei a Bommim esse dia dejuei-me às 11 horas com uma pinga dagua e um lata de douce (?) o que fome eu passei esse dia em seguida andemos uma semana sem comer rancho quente. Em cair neve então era uma desgracia nunca tanta neve vi em dias de minha vida."[...]
Excerto do Diário de Guerra de Manuel de Jesus Mendes da Póvoa da Barbeira - Seixo da Beira

Em face disto, o alto-comando inglês colocou o CEP num sector que estava completamente parado desde 1914, esperando assim que o Exército Português não causasse ao BEF, mais danos que o exército do Kaiser.
E na frente de Batalha, a Republica instalou-se como se estivesse nas manobras de verão. Criou-se na Flandres a ordem social de Lisboa.

Os Soldados e Sargentos oriundos do Povo analfabeto, afundados nos pântanos do Lys, à fome, ao frio e a evitar serem comidos vivos, por hordas de Ratos tão esfomeados quanto eles.

Os Oficiais, oriundos da alta burguesia, bem vestidos, bem alimentados, bem alojados, usavam o maior parque automóvel das forças aliadas, para passearem em Paris-Plage, como os galãs das fitas mudas.


Não havia por isso decisão mais digna que fugir da frente de Batalha. Não valia a pena morrer por Bernadino Machado, por Afonso Costa ou por Norton de Matos, verdadeiros mandantes da carnificina da Flandres.

[..]Agora nestes dias (…) (…) nos fins da minha vida eu nunca tanto fogo vi em dias de minha vida já não havia um metro de terreno que não fosse bombardiado os meus olhos já não viam se não sangue e desgracias tanto em melitares como em civiz. Agora temos 5 dias amarchar sem termos nem sequer uma manta para nosso agazalho a nossa roupa de cama é a capota no xão nestes dias andemos mais cada dia de 20 25 quilometros. Agora fome também temos tido la tanto tivemos um dia que nem café tivemos mas com isto tudo tenho muito agradecer a Deus em não morrer aquel dia a minha sorte foi muita que ao meu lado já não via senão fridos e mortos e alguns muito meus amigos tive imensa pena delles mas nada lhe pode ser bom em nada.[...]
Excerto do Diário de Guerra e Manuel de Jesus mendes da Póvoa da Barbeira - Seixo da Beira

[...]On April 9, the anniversary of the great crisis at Arras, our storm troops rose from their muddy trenches on the Lys front from Armentieres to La Bassee.

Of course they were not disposed in great waves, but mostly in small detachments and diminutive columns which waded through the morass which had been upheaved by shells and mines, and either picked their way towards the enemy lines between deep shell-holes filled with water or took the few firm causeways.

Under the protection of our artillery and trench-mortar fire, they succeeded in getting forward quickly in spite of all the natural and artificial obstacles, although apparently neither the English nor the Portuguese, who had been sandwiched in among them, believed it possible.

Most of the Portuguese troops left the battlefield in wild flight, and once and for all retired from the fighting.[...]

Paul von Hindenburg - Relatório sobre a Ofensiva de 9 de Abril de 1918

Mas dos Fracos não reza a história.

Logo após o final da guerra, uma névoa caiu sob a vergonha da Flandres. E desde então a História da derrota foi contada em termos gloriosos, do heróico sacrifício do CEP. Nada transpirou das milhares de deserções de oficiais, nada transpirou das horriveis condições que o CEP foi sujeito pela ignorância do governo de Lisboa.
Arranjou-se meia dúzia de Heróis desde o soldado analfabeto - Alfredo Milhais, ao Miliciano doutorado - Hernâni Cidade, aos quais deram a Torre Espada e diabolizou-se o Assassinado Sidónio ao qual se atribuíram todas as culpas da desgraça, sobretudo o de não ter enviado reforços*, quando na realidade Sidónio foi apenas culpado de não ter tido a coragem de ordenar a retirada total de França.

Hoje, 9 de Abril devemos honrar todos aqueles que passaram pelas trincheiras de La Lys, os que morreram e os que conseguíram sobreviver. Eles foram os verdadeiros heróis.
A vergonha essa, pertence por inteiro a quem lhes deu a guia de marcha.

* O CEP deixou de ter reforços em homens e material a partir do momento em que a Inglaterra desviou, em Setembro de 1917, os navios de transporte que asseguravam esse serviço para o transporte transatlântico do Exército Norte-Americano

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito Obrigada!

Nem calcula a dádiva que me deu com este artigo.

Meu nome é Ana Cidade. Sou sobrinha neta do professor Hernâni Cidade, e tento desesperadamente escavar o seu passado na grande guerra, e quando digo o do meu tio, o dos seus compatriotas e todos os outros que foram lutar por uma Europa na qual eu hoje vivo em liberdade e democracia. Pelo menos assim utopicamente quero acreditar. Mas quero saber como foi, onde foi, o que eles passaram, começo a entender como foi mau e me sinto dividida. É que temos outra parte da familia que esteve envolvida como não podia deixar de ser na 2 grande guerra com outro catedrático em Oxford e vivemos o blitz em Londres, e agora tenho o coração divido entre o sacrifico da primeira geração da minha familia e a segunda....a aqui fica o meu grande agradecimento só por ser ter lembrado do meu tio...nasci no dia 4 de Abril e dizem que um dos meus primeiros sorrisos foi para o meu tio... no dia 9 de Abril ele travou uma batalha...um dia que vou para sempre lembrar...O meu tio, o Soldado Milhões e o CEP ( os soldados que voltaram todos da licença para o inferno) assim como o cônsul Aristides Mendes de Sousa são aqueles Portugueses que ainda dão sentido de dignidade à frase "Sou Português!"

Anónimo disse...

Meu querido amigo, aqui lhe deixo o restante da historia sobre o meu tio Hernâni Cidade na batalha da Lys, ele sobreviveu, mas foi feito prisioneiro pelos alemães durante 9 meses sob condições horríveis e o porque de ter merecido a Torre Espada. É que parece como comandante de pelotão, passava o tempo a socorrer soldados de ambos os lados. Aqui esta o site de uma homenagem da antiga Universidade de Letras do Porto.

http://sigarra.up.pt/up/web_base.gera_pagina?P_pagina=1004238
Ana Cidade