Tenho reparado em alguns textos que então apareceram, mais ou menos justificativos, mas que todos eles dão a entender os “desertores” eram constituído por um corpo homogéneo, unido nas mesmas motivações políticas. Nada mais falso, havia várias espécies de desertores e todos o eram por diferentes razões.
O grupo mais numeroso de refractários foi aquele constituído pelo Portugueses que viviam na mais profunda miséria, sobretudo do interior rural, e conhecendo os relatos da primeira leva de emigrantes, que nos anos 50 foram trabalhar na reconstrução europeia, estiveram perante o dilema de ir cumprir o dever para com a pátria em África, Pátria essa que nunca fez nada para lhes proporcionar qualquer conforto e bem-estar, e ir tentar a sorte a salto nos países europeus, esses sim, que proporcionavam a todos, o tão ambicionado bem-estar a que desejavam ter direito. Estes “desertores” não sabiam, nem queriam saber nada de política, nem do “fascismo”, nem do Salazar. Tanto é assim que mesmo em França continuaram completamente apolíticos e tal posição continuou, mesmo até aos dias de hoje.
E chegamos à terceira classe de Desertores, aquela que Pacheco Pereira fala, e que tentava incluir num “bolo” único. Esta classe era constituída pela parte da população que beneficiava directamente do status-quo do Estado Novo, privilegiada, rica e instruída, vivia num outro Portugal, bem "longe" do estado de indigência em que se encontrava a maioria da população.
Estes recusaram defender a pátria que tanto os beneficiava e preferiram partir, financiados, a maioria pelos dinheiros dos seus papás. E o seu “exílio” foi bastante dourado.
Nessa altura Paris devia ser uma cidade espectacular para quem tinha duas coisas, Dinheiro e tempo Livre. Mesmo para aqueles cuja mesada paternal não chegava para os copos do Quartier Latin e Montparnasse, podiam arranjar facilmente um empregozeco relativamente bem pago. Esta classe de desertores nunca pôs o pé nos Bidonville, onde a primeira classe de "desertores" vivia, até podemos dizer que raramente saiu dos limites da cité, dos seus cafés e livrarias.
Não quero que pensem que estou aqui a dar lições de moral a estes senhores. Não dou, porque sou de uma outra geração. Geração que nunca foi posta perante o dilema de ter que defender a sua pátria lutando. Se vivesse nesses tempos, não poderia dizer, hoje em dia, qual a opção que teria tomado.
Mas estes desertores não contentes com o que fizeram, voltaram logo a seguir ao 25 de Abril para Portugal e foram-se colocar em Alcântara a chamar de “assassinos” aos Portugueses que combateram em África. Mais tarde o acto de cobardia serviu de “medalha” para se introduzirem na classe politica dirigente, onde ainda se encontram. Aí difundiram a sua cultura de exigir direitos recusando-se a cumprir qualquer dever, cultura essa que hoje está completamente arreigada na Sociedade Portuguesa.
Mas não se ficaram por aí!
Tiveram até a desfaçatez de Auto-atribuir-se pensões por “feitos relevantes na luta Anti-fascista”.
Estes cobardolas apenas são merecedores do meu mais profundo desprezo.
Nada lhes devo.
Se houve 25 de Abril, se hoje vivemos em Democracia e se a minha geração nunca se confrontou com o dilema de combater ou não combater, são coisas que devo a todos os Portugueses que foram mobilizados para a guerra do Ultramar, sobretudo aqueles que nunca voltaram.
Esses é que são os verdadeiros Heróis.
Esses é que foram os que se sacrificaram.
Esses foram aqueles que todos os dias, durante dois anos ao acordar, não sabiam se iria ser a última vez.
Esses são aqueles que hoje estão votados ao esquecimento.
Esses são aqueles que a classe política, saída do 25 de Abril, nunca teve a honra nem a dignidade de lhes agradecer.
A todos os que foram mobilizados, o meus sinceros agradecimentos.
BADAMERDA!
